Segurança e... segurança!
Em 29.out.2005 postei o texto abaixo, que transcrevo para evitar que tenham o trabalho de procurar...
Comparem com as palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em entrevista a O Estado de S. Paulo, de 12.fev.2006, que vem logo a seguir.
É um bom material para reflexão, especialmente quando estamos muito preocupados com nosso umbigo.
Lembrando que Aïvanhov nasceu na Bulgária, em 1900, e morreu na França, em 1986. Junto com Peter Deunov, fundou a Fraternidade Branca Universal.
"Essa segurançazinha não durará muito tempo - Aïvanhov
Nós devemos trabalhar com amor e desapego a fim de formarmos uma só família na terra. Só nessa altura os direitos de cada pessoa serão respeitados. Quando tudo prossegue harmoniosamente numa coletividade, todos os indivíduos beneficiam das boas condições, ao passo que se apenas alguns indivíduos se encontrarem bem, também estes serão ameaçados mais dia menos dia. Enquanto a situação não for pacífica e estável para todos, não o será realmente para ninguém. A vida coletiva é o meio em que estamos mergulhados, nós dependemos dele. Ninguém pode considerar a sua própria situação independentemente da coletividade. Por isso, o objetivo das pessoas não deve ser o de procurarem um abrigozinho apenas para si, porque essa segurançazinha não durará muito tempo.
Fonte: AÏVANHOV, Omraam Mikhaël - Pensamentos Quotidianos; Lisboa (PT): Edições Prosveta; 1997: 100. [No texto, o negrito é nosso]."
Leiam, a seguir, parte da entrevista de Z. Bauman:
"O sr. diria, como Freud, que a civilização é fruto de um acordo entre segurança e liberdade e que, tendo a nossa civilização ido longe demais com essa história de liberdade, ela agora prefira a segurança?
Até o momento, nossa globalização é absolutamente negativa, uma globalização altamente seletiva de comércio e capital, vigilância e informação, coerção e armas, crime e terrorismo, que agora desprezam soberania territorial e não respeitam fronteiras de Estados. Ela continua não barrada por uma contraparte positiva - globalização de controle político, lei e justiça - que ainda é uma perspectiva distante, na melhor das hipóteses. Deixada em seu curso natural, a globalização "negativa" se especializa em romper fronteiras fracas demais para suportar a pressão, enquanto faz numerosos furos nas fronteiras que resistem com sucesso ao desmanche. A "abertura" de nossa "sociedade aberta" adquiriu hoje em dia um novo verniz nem sonhado por Karl Popper, que cunhou essa expressão. Não mais o produto preciso de um bravo esforço autoafirmativo, ela se tornou um destino irresistível acarretado pelas pressões de forças exteriores formidáveis. Se a idéia de uma "sociedade aberta" representava originalmente a autodeterminação de uma sociedade livre, ela agora traz à maioria das mentes a experiência aterradora de populações indefesas e vulneráveis assediadas por forças que elas nem controlam nem compreendem realmente, tão obcecadas pela segurança de suas fronteiras e da população dentro delas que isto escapa à sua compreensão.
Nesse quadro, é possível ainda falar em segurança ou pelo menos alimentar a esperança de que o mundo possa encontrar um caminho para ela?
Num planeta globalizado, habitado por sociedades "abertas" à força, a segurança não pode ser garantida num país ou num grupo seleto de países: não por seus próprios meios, e não independentemente do estado de coisas no resto do mundo. Tampouco a justiça, essa condição preliminar de uma paz duradoura. A "abertura" pervertida de sociedades provocada pela globalização negativa é, em si, a causa primeira da injustiça e assim, obliquamente, do conflito e da violência. Como diz Arundhati Roy, "enquanto a elite faz suas viagens a seu destino imaginário, algum lugar no topo do mundo, os pobres são apanhados numa espiral de crimes e caos". Foram as ações dos Estados Unidos em conjunto com seus vários satélites, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial de Comércio, que "promoveram desdobramentos subsidiários, subprodutos perigosos como o nacionalismo, o fanatismo religioso, o fascismo e, claro, o terrorismo, avançando passo a passo com o projeto neoliberal de globalização". "Mercado sem fronteiras" é uma receita para a injustiça, e, por fim, numa nova desordem mundial em que (ao contrário de Clausewitz) é a política que se torna uma continuação da guerra por outros meios. A ilegalidade global e a violência armada se alimentam mutuamente, se reforçam e revigoram mutuamente; como adverte um saber antigo - inter arma silent leges (entre as armas, a lei silencia). A globalização de ofensas e danos repercute na globalização de ressentimentos e vinganças. A sociedade já não é protegida pelo Estado, ou pelo menos é improvável que confie na proteção existente; ela hoje está exposta à rapacidade de forças que não controla e não espera nem pretende mais recapturar e subjugar. É por isso que os governos nacionais, lutando todos os dias para resistir às tempestades, cambaleiam de uma campanha de administração de crise ad hoc a medidas de emergência, sonhando apenas com a permanência no poder depois da próxima eleição.
Como o Estado-nação sobreviverá a essas tempestades?
"Aberto" e cada vez mais indefeso de ambos os lados, o Estado-nação perde seu poder, evaporando-se no espaço global. Seu discernimento e destreza políticos estão hoje cada vez mais relegados à esfera da "vida pública" individual e "subsidiarizada" aos homens e mulheres individuais. O que resta de poder e política nos encargos do Estado e seus organismos encolhe gradualmente para um volume suficiente talvez, na melhor das hipóteses, para montar um distrito policial de grande porte. O Estado reduzido dificilmente poderá ser um Estado de segurança. Tendo vazado da sociedade aberta à força pela pressão das forças globalizadoras, poder e política se afastam cada vez mais em direções opostas. O problema, e a tarefa terrível que, com toda probabilidde, se colocarão como o desafio supremo no presente século será reunir novamente poder e política. A reunião dos parceiros separados no âmbito do Estado-nação é, porém, a menos promissora das respostas possíveis a esse desafio, já que todos os principais problemas básicos são globais e não admitem soluções locais. Não existem, e não podem existir, soluções locais para problemas globalmente originados e perpetuados. A reunião de poder e política poderá ser conseguida, se puder, o nível planetário. Como disse Benjamin R. Barber, "nenhuma criança americana poderá se sentir segura em seu leito se em Karachi ou Bagdá as crianças não se sentirem seguras nos seus. Os europeus não se vangloriarão por muito tempo de suas liberdades se os povos de outras partes do mundo continuarem necessitados e humilhados". Democracia e liberdade já não poderão ser garantidas em um país ou mesmo um grupo de países; sua defesa num mundo saturado de injustiça e habitado por bilhões de seres humanos privados de dignidade humana inevitavelmente corromperia os próprios valores que pretendiam defender. O futuro da democracia e da liberdade pode ser assegurado numa escala planetária - ou não ser."
Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, 12.fev.2006/domingo, caderno Cultura, p. D8 (Síndrome de Titanic ameaça a paz - entrevista de Zygmunt Bauman).
Acompanhando o que acontece pelos quatro cantos do mundo, pelos olhos da mídia, e lendo textos como o acima, fica difícil não se perguntar: onde vamos parar? Lembramos das divisas do Partido, em "1984" (George Orwell):
"Guerra é paz
Liberdade é escravidão
Ignorância é força"
Os poderosos do mundo ainda se apegam à máxima latina: si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra) e levam a guerra ao quintal do outro, acreditando garantir a paz e segurança em seu próprio domínio (esquecem-se que Roma ruiu há séculos). Se há uma lição moral nessa assertiva, é de que a guerra deve ser travada intramuros, individualmente, contra o egoísmo e a ganância que nos domina e nos leva a predar os demais.
Hanna Arendt nos ensina que "onde os homens aspiram a ser soberanos, como indivíduos ou como grupos organizados, devem se submeter à opressão da vontade, seja esta a vontade individual com a qual obrigo a mim mesmo, seja a 'vontade geral' de um grupo organizado. Se os homens desejam ser livres, é precisamente à soberania que devem renunciar" (O que é liberdade?, in Entre o Passado e o Futuro). Nossa noção de soberania cheira a dominação do outro para assegurar nosso conforto. É da sabedoria popular que farinha pouca, meu pirão primeiro...
Afoitamente, debitamos aos governos toda a responsabilidade pelos desajustes que tanto nos assombram no mundo de hoje, esquecendo que tais governos são criados e empossados por nós, de alguma forma - "O poder, contrariando as aparências, flui de baixo para cima; vem da submissão ou do consentimento dos governados" (John Updyke). Ou seja, as roubalheiras, guerras, rapinagens, opressões, etc., têm nossa concordância, tácita ou explícita.
Buscamos apoio na "autoridade", como criaturinhas indefesas buscam as tetas ou as asas da mãe. Mas, voltando a Hanna Arendt, a autoridade desapareceu no mundo moderno. "Visto que a autoridade sempre exige obediência, ela é comumente confundida como alguma forma de poder ou violência. Contudo, a autoridade exclui a utilização de meios externos de coerção; onde a força é usada, a autoridade em si mesmo fracassou" (O que é autoridade?, in Entre o Passado e o Futuro; itálicos nossos).
Precisamos repensar nossas estratégias pessoais, ou nos afastamos cada vez mais do que mais queremos. Aliás, o que é mesmo que queremos?


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