Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

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Segunda-feira, Agosto 14, 2006

GUERRA DA TERRA ALHEIA - Affonso Romano de Sant’Anna

O povo que não tem pátria, patriota,
combate o povo que ontem
-nem pátria tinha.
O fato é que o mais fraco
vai de novo pagando o pato
sem que se saiba ao certo
se o ovo nasceu primeiro
ou se, ao contrário, a galinha.

É isto fábula de rato e gato?
História de cordeiro e lobo?
De fato o povo que outrora
não tinha pátria
combateu em pátria alheia
para ter sua própria pátria.
Agora na pátria própria
combatem em alheia pátria
os que, sem pátria, combatem
prá ter, enfim pátria própria.

Não se sabe por que não podem
compartir a própria pátria
esses que compartem a pátria alheia.
São aranhas enredadas
no ódio da própria teia?
Por que não compartem terra
e céu, como as flores e pássaros
compartem a aldeia?

Há fim? há princípio?
nesta história redonda e torta?
Por que não compartem a sorte
e a vida, esses compatriotas
do horror e morte? Além do mais,
se há tanto tempo compartem a guerra
por que não podem compartir a paz?

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Publicado no JB de 13.ago.2006, p. A36.

Cilada Verbal - Affonso Romano de Sant'Anna

Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
- envenenada.

Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
- na sintaxe da emboscada.

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Poesia Reunida, vol. 2 - Porto Alegre: LP&M, 2004, pg. 87 (se vc for conferir se está mesmo lá, deixe de ser preguiçoso(a) e leia todo o livro. Aliás, leia também o primeiro volume...).

Saúde mental - Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou. Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.

Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. É claro que nenhuma mamãe consciente quererá que o seu filho seja como van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil ou da CPFL. Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político que tivesse stress ou depressão, com excessão do Suplicy. Andam sempre fortes e certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente coisa dura e a outra se denomina software, coisa mole. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais - símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes.

Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.

Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o software, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.

A beleza pode fazer mal à saúde mental. Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom trabalho.

Dadas essas reflexões científicas sobre a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no início, evitando assim o triste fim que tiveram.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente perigosos. Já o roque pode ser tomado à vontade, sem contra indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do Dr. Lair Ribeiro, por que arriscar-se a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa saúde mental têm sempre as mesmas idéias. Essa cotidiana ingestão do banal é condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde mental. E, aos domingos, não se esqueca do Sílvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá como eles eram.

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Rubem Alves é..., ora essa, dispensa apresentação! Quem não sabe quem é Rubem Alves?!
O texto acima está no livro "Sobre o Tempo e a eternaIdade"; SP: Papirus, 1995, pg. 85.
Recomendo fortemente esse e os demais livros do autor, mas, cuidado!, eles podem fazer muito mal para sua saúde mental.

Segunda-feira, Junho 19, 2006

Ápice - Alcione Aburquerque

Ápice

Queria escrever um livro
Como quem faz um amor quase perfeito
Das passadas de mãos
Às cotoveladas
Atingir o riso
Liso
Leve
Deste olhar
Que penetra mais fundo
No úmido da alma
Suspiro.


Alcione
Madrugada de 20/06/06 BH

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

Segurança e... segurança!

Em 29.out.2005 postei o texto abaixo, que transcrevo para evitar que tenham o trabalho de procurar...
Comparem com as palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em entrevista a O Estado de S. Paulo, de 12.fev.2006, que vem logo a seguir.
É um bom material para reflexão, especialmente quando estamos muito preocupados com nosso umbigo.
Lembrando que Aïvanhov nasceu na Bulgária, em 1900, e morreu na França, em 1986. Junto com Peter Deunov, fundou a Fraternidade Branca Universal.

"Essa segurançazinha não durará muito tempo - Aïvanhov

Nós devemos trabalhar com amor e desapego a fim de formarmos uma só família na terra. Só nessa altura os direitos de cada pessoa serão respeitados. Quando tudo prossegue harmoniosamente numa coletividade, todos os indivíduos beneficiam das boas condições, ao passo que se apenas alguns indivíduos se encontrarem bem, também estes serão ameaçados mais dia menos dia. Enquanto a situação não for pacífica e estável para todos, não o será realmente para ninguém. A vida coletiva é o meio em que estamos mergulhados, nós dependemos dele. Ninguém pode considerar a sua própria situação independentemente da coletividade. Por isso, o objetivo das pessoas não deve ser o de procurarem um abrigozinho apenas para si, porque essa segurançazinha não durará muito tempo.

Fonte: AÏVANHOV, Omraam Mikhaël - Pensamentos Quotidianos; Lisboa (PT): Edições Prosveta; 1997: 100. [No texto, o negrito é nosso]."


Leiam, a seguir, parte da entrevista de Z. Bauman:

"O sr. diria, como Freud, que a civilização é fruto de um acordo entre segurança e liberdade e que, tendo a nossa civilização ido longe demais com essa história de liberdade, ela agora prefira a segurança?

Até o momento, nossa globalização é absolutamente negativa, uma globalização altamente seletiva de comércio e capital, vigilância e informação, coerção e armas, crime e terrorismo, que agora desprezam soberania territorial e não respeitam fronteiras de Estados. Ela continua não barrada por uma contraparte positiva - globalização de controle político, lei e justiça - que ainda é uma perspectiva distante, na melhor das hipóteses. Deixada em seu curso natural, a globalização "negativa" se especializa em romper fronteiras fracas demais para suportar a pressão, enquanto faz numerosos furos nas fronteiras que resistem com sucesso ao desmanche. A "abertura" de nossa "sociedade aberta" adquiriu hoje em dia um novo verniz nem sonhado por Karl Popper, que cunhou essa expressão. Não mais o produto preciso de um bravo esforço autoafirmativo, ela se tornou um destino irresistível acarretado pelas pressões de forças exteriores formidáveis. Se a idéia de uma "sociedade aberta" representava originalmente a autodeterminação de uma sociedade livre, ela agora traz à maioria das mentes a experiência aterradora de populações indefesas e vulneráveis assediadas por forças que elas nem controlam nem compreendem realmente, tão obcecadas pela segurança de suas fronteiras e da população dentro delas que isto escapa à sua compreensão.

Nesse quadro, é possível ainda falar em segurança ou pelo menos alimentar a esperança de que o mundo possa encontrar um caminho para ela?

Num planeta globalizado, habitado por sociedades "abertas" à força, a segurança não pode ser garantida num país ou num grupo seleto de países: não por seus próprios meios, e não independentemente do estado de coisas no resto do mundo. Tampouco a justiça, essa condição preliminar de uma paz duradoura. A "abertura" pervertida de sociedades provocada pela globalização negativa é, em si, a causa primeira da injustiça e assim, obliquamente, do conflito e da violência. Como diz Arundhati Roy, "enquanto a elite faz suas viagens a seu destino imaginário, algum lugar no topo do mundo, os pobres são apanhados numa espiral de crimes e caos". Foram as ações dos Estados Unidos em conjunto com seus vários satélites, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial de Comércio, que "promoveram desdobramentos subsidiários, subprodutos perigosos como o nacionalismo, o fanatismo religioso, o fascismo e, claro, o terrorismo, avançando passo a passo com o projeto neoliberal de globalização". "Mercado sem fronteiras" é uma receita para a injustiça, e, por fim, numa nova desordem mundial em que (ao contrário de Clausewitz) é a política que se torna uma continuação da guerra por outros meios. A ilegalidade global e a violência armada se alimentam mutuamente, se reforçam e revigoram mutuamente; como adverte um saber antigo - inter arma silent leges (entre as armas, a lei silencia). A globalização de ofensas e danos repercute na globalização de ressentimentos e vinganças. A sociedade já não é protegida pelo Estado, ou pelo menos é improvável que confie na proteção existente; ela hoje está exposta à rapacidade de forças que não controla e não espera nem pretende mais recapturar e subjugar. É por isso que os governos nacionais, lutando todos os dias para resistir às tempestades, cambaleiam de uma campanha de administração de crise ad hoc a medidas de emergência, sonhando apenas com a permanência no poder depois da próxima eleição.

Como o Estado-nação sobreviverá a essas tempestades?

"Aberto" e cada vez mais indefeso de ambos os lados, o Estado-nação perde seu poder, evaporando-se no espaço global. Seu discernimento e destreza políticos estão hoje cada vez mais relegados à esfera da "vida pública" individual e "subsidiarizada" aos homens e mulheres individuais. O que resta de poder e política nos encargos do Estado e seus organismos encolhe gradualmente para um volume suficiente talvez, na melhor das hipóteses, para montar um distrito policial de grande porte. O Estado reduzido dificilmente poderá ser um Estado de segurança. Tendo vazado da sociedade aberta à força pela pressão das forças globalizadoras, poder e política se afastam cada vez mais em direções opostas. O problema, e a tarefa terrível que, com toda probabilidde, se colocarão como o desafio supremo no presente século será reunir novamente poder e política. A reunião dos parceiros separados no âmbito do Estado-nação é, porém, a menos promissora das respostas possíveis a esse desafio, já que todos os principais problemas básicos são globais e não admitem soluções locais. Não existem, e não podem existir, soluções locais para problemas globalmente originados e perpetuados. A reunião de poder e política poderá ser conseguida, se puder, o nível planetário. Como disse Benjamin R. Barber, "nenhuma criança americana poderá se sentir segura em seu leito se em Karachi ou Bagdá as crianças não se sentirem seguras nos seus. Os europeus não se vangloriarão por muito tempo de suas liberdades se os povos de outras partes do mundo continuarem necessitados e humilhados". Democracia e liberdade já não poderão ser garantidas em um país ou mesmo um grupo de países; sua defesa num mundo saturado de injustiça e habitado por bilhões de seres humanos privados de dignidade humana inevitavelmente corromperia os próprios valores que pretendiam defender. O futuro da democracia e da liberdade pode ser assegurado numa escala planetária - ou não ser."

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, 12.fev.2006/domingo, caderno Cultura, p. D8 (Síndrome de Titanic ameaça a paz - entrevista de Zygmunt Bauman).

Acompanhando o que acontece pelos quatro cantos do mundo, pelos olhos da mídia, e lendo textos como o acima, fica difícil não se perguntar: onde vamos parar? Lembramos das divisas do Partido, em "1984" (George Orwell):
"Guerra é paz
Liberdade é escravidão
Ignorância é força"


Os poderosos do mundo ainda se apegam à máxima latina: si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra) e levam a guerra ao quintal do outro, acreditando garantir a paz e segurança em seu próprio domínio (esquecem-se que Roma ruiu há séculos). Se há uma lição moral nessa assertiva, é de que a guerra deve ser travada intramuros, individualmente, contra o egoísmo e a ganância que nos domina e nos leva a predar os demais.

Hanna Arendt nos ensina que "onde os homens aspiram a ser soberanos, como indivíduos ou como grupos organizados, devem se submeter à opressão da vontade, seja esta a vontade individual com a qual obrigo a mim mesmo, seja a 'vontade geral' de um grupo organizado. Se os homens desejam ser livres, é precisamente à soberania que devem renunciar" (O que é liberdade?, in Entre o Passado e o Futuro). Nossa noção de soberania cheira a dominação do outro para assegurar nosso conforto. É da sabedoria popular que farinha pouca, meu pirão primeiro...

Afoitamente, debitamos aos governos toda a responsabilidade pelos desajustes que tanto nos assombram no mundo de hoje, esquecendo que tais governos são criados e empossados por nós, de alguma forma - "O poder, contrariando as aparências, flui de baixo para cima; vem da submissão ou do consentimento dos governados" (John Updyke). Ou seja, as roubalheiras, guerras, rapinagens, opressões, etc., têm nossa concordância, tácita ou explícita.

Buscamos apoio na "autoridade", como criaturinhas indefesas buscam as tetas ou as asas da mãe. Mas, voltando a Hanna Arendt, a autoridade desapareceu no mundo moderno. "Visto que a autoridade sempre exige obediência, ela é comumente confundida como alguma forma de poder ou violência. Contudo, a autoridade exclui a utilização de meios externos de coerção; onde a força é usada, a autoridade em si mesmo fracassou" (O que é autoridade?, in Entre o Passado e o Futuro; itálicos nossos).

Precisamos repensar nossas estratégias pessoais, ou nos afastamos cada vez mais do que mais queremos. Aliás, o que é mesmo que queremos?

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

A Última Crônica - Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.


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Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
Contribuição: Andréa Lourenço

Sábado, Fevereiro 04, 2006

Mozart ou Mário Quintana?

Mozart - 250º aniversário (*27.jan.1756; +05.dez.1791)
Mário Quintana - 100º aniversário (*30.jul.1906; +05.maio.1994)

Tive uma dúvida boba: ouvir Mozart ou ler Quintana?
Ler Quintana, ouvindo Mozart, ora essa!!!

Experimente você também. O risco é você não querer mais voltar à terra...

O humor de Mário Quintana

A Arte de Ler
O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

A Carta
Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.

A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

As Indagações
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.

A Voz
Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.

Ars Longa
Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.

Arte Poética
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.

Biografia
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.

Cartaz para uma feira do livro
Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.

Citação
De um autor inglês do saudoso século XIX: "O verdadeiro gentleman compra sempre três exemplares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente."

Citação 2
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância."

Contradições
... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso, é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.

Cuidado
A poesia não se entrega a quem a define.

Das Escolas
Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua.

Destino Atroz
Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

Do Estilo
O estilo é uma dificuldade de expressão.

Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.

Dos Livros
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.

Dupla Delícia
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Educação
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.

Fatalidade
O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.

Feira de Livro
O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis e prolonga a existência.

Leitura
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.

Leitura 2
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.

Leituras
— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.

Leituras 2
Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar . Que idéia foi essa do teu professor?
Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre.
Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.

Lógica & Linguagem
Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística dos provérbios? Este, por exemplo: "Quem cospe para o céu, na cara lhe cai". Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de súbito a razão.

O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.

O Poema
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.

O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Palavra Escrita
Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.

Poema
Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos...

Poesia & Lenço
E essa que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Poesia & Peito
Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.

Refinamentos
Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.

Ressalva
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.

Sinônimos
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.

Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Tempo
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.

Veneração
Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.

Vida
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.

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Pensamentos extraídos do livro "Do Caderno H", Editora Globo - Porto Alegre, 1973, págs. diversas.


Disponível em http://www.releituras.com/mquintana_cadernoh.asp. Capturado em 04.fev.2006.

POEMINHA SENTIMENTAL - Mário Quintana

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
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Preparativos de Viagem
Disponível em http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/2776/quintana.html#XII. Capturado em 04.fev.2006.

OS ARROIOS - Mário Quintana

Os arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...
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Baú de Espantos

Disponível em http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/2776/quintana.html#XII. Capturado em 04.fev.2006.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

Amor, vamos discutir a nossa relação? - Mário Prata

DISCUTIR: defender ou impugnar (assunto controvertido); questionar.
RELAÇÃO: comparação entre duas quantidades mensuráveis. (Aurélio)

Há alguns anos, eu e minha mulher (hoje ex-) fomos convidados pelo cantor e compositor João Bosco para assistirmos ao show dele no Teatro Municipal de Santo André. Como não sabíamos o caminho, João Bosco, que ia com a Kombi da gravadora, ofereceu-se para uma carona. Pegamos ainda o genial jornalista policial Otávio Ribeiro (Pena Branca) e sua noiva no Hotel Cineasta no centro de São Paulo e lá fomos nós. Pena tinha acabado de escrever um livro chamado Barra Pesada.

Quando chegamos, o teatro estava superlotado, não havendo mais espaço nem no chão. O produtor do João nos arrumou quatro cadeiras e lá ficamos nós num cantinho do palco. No centro, com foco de luz, apenas o João, o banquinho e o violão.

Foi quando tudo se deu. Pena Branca e a noiva começaram uma discussão no palco. Lá no cantinho, para constrangimento meu e da Marta, enquanto João Bosco reclamava de "um torturante bandeide no calcanhar". Da discussão partiram para um bate-boca de baixíssimo nível. Altos brados e baixos calões. Começaram a se xingar. O que aconteceu é que as mais de mil pessoas que lotavam o teatro começaram a desviar os olhos do centro do palco para o canto. Ali, naquele pequeno espaço cênico, estava acontecendo um outro espetáculo. Um casal DISCUTIA A RELAÇÃO, com o João Bosco fazendo um mero e distante fundo musical. Foi um sucesso, para desespero meu e da Marta, meros figurantes sem fala, porém boquiabertos. Não sei se o meu saudoso Pena Branca continuou com a moça depois daquele dia. Sim, porque quando se começa a DISCUTIR A RELAÇÃO é, quase sempre, porque não existe mais relação. Apenas discussão.

DISCUTIR A RELAÇÃO é um ato recente. Antigamente, lá pelos anos 60, não se fazia isso. Quando o namorado ou a namorada chegava para o outro e dizia: "Sabe, eu estive pensando...” Pronto, o ouvinte já sabia que era o fim. Não havia mais o que discutir. Saía cada um para o seu lado dizendo que houve (que saudades) uma "incompatibilidade de gênios". Isso resolvia tudo.

E os nossos pais jamais discutiram a relação. Nem mesmo a relação sexual. Dava-se uma porrada e não se falava mais naquilo. As mulheres (infelizmente) sabiam do seu lugar ao lado do fogão, sem o fogo do amado.

Mas o mundo girou, a lusitana rodou, vieram os psicanalistas e as feministas. Sim, foram eles que instigaram as mulheres a DISCUTIR A RELAÇÃO. Sim, são sempre as mulheres que começam (e acabam) as discussões e as relações. Os terapeutas, porque colocam na cabeça da gente que devemos dizer tudo que pensamos da pessoa amada para ela e não para o melhor amigo. E as feministas, bem, as feministas...

Mas, antes de surgir a expressão DISCUTIR A RELAÇÃO, tivemos outros nomes para a mesma desgastante peleja. "Vamos dar um tempo' não durou muito. Depois surgiu "Nossa relação está desgastada". Por que não "gastada"?

Hoje, modismo ou não, não há casal que não DISCUTA A RELAÇÃO, pelo menos uma vez por semana, igualando ao número de atividades sexuais. DISCUTE-SE A RELAÇÃO nos mais variados lugares. Alguns sombrios, outros perigosos.

O melhor lugar para se discutir a relação é na sala. Está-se próximo do uísque, da televisão que pode ser ligada a qualquer momento e mesmo da porta, para uma saída furtiva e quase sempre covarde. E é ótimo DISCUTIR A RELAÇÃO andando em círculos, com um copo na mão, um ouvido na fera e um olho no futebol. Sim, as mulheres adoram esta atividade aos domingos. Eu tenho um amigo que, quando quer sair sozinho com os amigos, diz: "Vou até lá em casa e dou um jeito de DISCUTIR A RELAÇÃO com a patroa, ela fica irritada e eu tenho um motivo para voltar aqui para o bar'.

DISCUTIR A RELAÇÃO no quarto só tem duas saídas. Tudo terminar numa belíssima e lacrimejante cena de amor (às vezes, até com uns tapinhas carinhosos) ou a ida de um dos meliantes para o outro quarto. No quarto, é impossível se tratar deste assunto impunemente. Principalmente se os dois atletas estiverem deitados. E nus. E se houver alguma faca por perto. Vide Robbit.

No carro, é um perigo. Deveria haver multa para esses casais que colocam em risco não apenas a vida deles, como também dos transeuntes e demais carros. DISCUTIR A RELAÇÃO dentro do carro sempre acaba em trombada na cara. E quem está dirigindo leva sempre a pior. Ou então propor um rodízio. Segunda, não discutem casais com final 1 e 2. Terça, 3 e 4. E assim por diante.

Agora, não há nada mais desagradável do que DISCUTIR A RELAÇÃO por telefone. É um horror. Geralmente é de madrugada. Longos silêncios... "Você está me ouvindo? Você está aí?" A gente não vê os olhos da outra pessoa, o sarcástico sorrisinho, a pequena lágrima rolando. Sem falar na conta do telefone.

E no restaurante, vocês já repararam? Sempre tem alguns casais que chegam calados, comem calados e calados saem. Um não dirige a palavra para o outro. Ledo engano. Eles estão, em silêncio, DISCUTINDO A RELAÇÃO. Acho uma covardia DISCUTIR A RELAÇÃO em silêncio. Eles não falam nada. Ela fica quebrando palitos e ele rasgando o guardanapo de papel. Imundando o restaurante.

Já os mais modernos DISCUTEM A RELAÇÃO via Internet. Ele digita um disparate para ela na Vila Madalena, o texto vai para um satélite, dali vai para Columbus (Ohio, USA), volta ao satélite, baixa na central do Rio de Janeiro e, finalmente, entra no computador dela em Pinheiros, a uns 500 metros de distância. Depois é a vez dela fazer o mesmo. Coitado do satélite que tem que decifrar aqueles palavrões todos. Em português, é claro!

Mas o pior não é DISCUTIR A RELAÇÃO. O pior é pagar fortunas a um profissional, sentar-se numa poltrona ou divã e ficar ali, durante 50 minutos, por intermináveis semanas, meses a fio, anos seguidos, repetindo tintim por tintim como foi a nossa última conversa com o ser amado, fazendo um esforço danado para lembrar fala por fala, todos os diálogos. E o terapeuta lá, com aquele olho de peixe morto, caído, quase bocejando, ouvindo, pela oitava vez, naquela mesma tarde, a mesma nauseante história de amor.

Sim, porque com ele a gente não DISCUTE A RELAÇÃO. Discutimos, no máximo, o preço. Da nossa dor.

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Texto extraído do livro “100 crônicas de Mário Prata”, Cartaz Editorial – São Paulo, 1997, pág. 163. Disponível em Fonte: http://www.releituras.com/marioprata_menu.asp; acessado em 13.jan.2006.
Contribuição: Alcione Albuquerque